terça-feira, 27 de março de 2018

Funeral

Se as pessoas ditas (dizem elas) normais odeiam funerais, nós ansiosos odiamos a triplicar.
Não lido bem com a morte, nunca lidei para ser verdade, em miúda questionava-me sobre o porquê de ter nascido. Entretanto tive uma fase em que dizia à minha avó que não pertencia a este mundo e que tinha tido outra vida. Contava mesmo pormenores da minha outra vida, ao que ela me respondia que eu tinha sonhado. Talvez tivesse, ou talvez não, deixo esta parte aos crentes ou não.
Mas voltando à morte.
Sempre me custou imenso perceber ou aceitar que andamos por aqui, sofremos , e depois vamos para sei lá eu onde.
Ando a aprender a lidar com tudo isto, sim estes dois meses quase, tenho feito muita coisa. Tenho metido na cabeça tudo o que quero "mudar" ou pelo menos aceitar e a morte é um caso bicudo que nem sei bem como tratar dela. É que este bicho papão vai acontecer um dia. Aliás é a única certeza que temos na vida.
Hoje tive um funeral, estive para não ir, toda eu tremia.
Quando ligaram para a mãe dele no domingo à noite, e ela atende com um "oh... não me digas... serio?", de repente recuei 9 anos, para aquele dia em que o meu irmão me ligou a dar a noticia que o meu pai tinha morrido.
Como assim morreu? Ninguém pode morrer aos 51 anos. Além disso eu estava chateada com ele, e ele comigo, como assim morre e nem dá para um perdão, para um "já não estamos chateados". Que raio de merda é esta?
Ora bem a chamada não foi bem isto mas foi algo como "anda rápido o pai morreu" e eu que tinha acabado de acordar com a chamada, sim, eram 5 da manhã só consegui dizer "estás a falar sério?" , acho que repeti isto umas 3 ou 4 vezes até que a minha cunhada, na sua calma (imagino por dentro) me diz ".. anda embora, ele morreu mesmo". Nessa manhã meti a minha capa de super heroína, uma cat woman, uma mulher maravilha, uma super mulher, nem sei que mais super heroínas por ai andam nesse mundo da Marvel, mas eu vesti-me delas todas. O meu irmão precisava de mim, afinal de contas ele era muito próximo do meu pai e nem imaginava como estaria.
Só perdi as estribeiras no enterro, nesse momento nenhuma capa me serviu, nenhum super poder me valeu, desfiz-me em dor, raiva, chateei-me com o mundo, com todos os que ali estavam naquele dia. Numa fração de segundos, passei de super heroína a uma menina pequenina, que mesmo não tendo afinidade com aquele pai, sentiu que a vida era uma linha fininha que a qualquer momento se quebraria para sempre.
Naquele dia o meu medo da morte passou a um autentico pavor.
Em 2 anos "enterrei" 4 pessoas da minha família, uma delas a minha avó que tinha sido a minha mãe.
Dela falo noutro dia, dela não ficou magoa nem dor, nem medo.

Mas voltando ao dia de hoje, só para que haja noção do meu medo, sonhei com o funeral. Acordei meio atordoada. Mas vesti a minha capa, respirei fundo, meditei antes de sair, levei o meu alprazolam caso não me aguentasse e lá fui.
Pelo caminho quase não falei, ou fico atenta à respiração ou falo. Falar faz gastar fôlego. O marido punha-me a mão na perna para eu saber que ele estava ali. Não ajudou, quando estou nesta fase nem gosto que me toquem, parece que o meu corpo ainda reage mais.
Cheguei lá ainda com a capa, mas mal pus os pés fora do carro já tinha os joelhos dormentes.
Cheguei à porta da capela, ainda com os joelhos adormecidos e a falhar, mas estava ali. Telemóvel na mão, phones prontos para aquela musica soft que me acalma. A mãe dele estava lá, "olha esta é a fulana x e aquela y" e eu só queria mesmo era dar um beijinho à prima dele e fugir, não me apetecia muito conhecer gente num funeral. As pessoas são para se conhecer fora destas cerimónias.
Lá me afastei e disse "ah vou dar um beijinho à---". Entro na capela, vejo o caixão e.. já não eram só os joelhos dormentes. Era o peito, os joelhos, as mãos, a cabeça.
Saio de lá, meto o sos à boca e phones nos ouvidos. Fui a tempo desta vez, sim que eu forço-me ao limite e por vezes a ansiedade passa ao pânico. Não chegou lá.

Ando por ali, feita barata tonta, inspira, expira, relaxa, e ouço uma velhinha "menina precisa de alguma coisa? está bem?" e todos nós temos aquela frase gravada no cérebro que já sai sem pensar "sim sim está , muito obrigada" sorriso 3890, já decorado para aquela ocasião e lá continuei a "furar" o chão de tanto andar para a frente e trás.

O medicamento lá fez efeito, mas a dormência continuava lá. Bendito comprimido (que odeio, mas nestas alturas nem sabe mal de todo) que me retirou toda aquela dor de cima. Lá me cheguei próximo de novo, afinal só queria dar um beijinho À prima dele para fugir dali. Mas tive de esperar. A cerimonia tinha começado... merda.
Inspira, expira, chega um amigo de família e encosta-se a falar. Inspira, expira, e outro amigo fala de caminhadas e um grupo que tem e eu devia ir. Sim, sim é interessante mas agora?
Inspira, expira , finalmente acaba a cerimonia. Entro na capela, tento evitar o contacto com o caixão, nesta fase já toda eu transpirava, mas o medicamento estava em alta no seu efeito. Dei um beijinho À prima dele, ela abraçou-me, eu a ela, e caramba... confesso que embora não tenha muita ligação com a prima dele, senti mesmo naquele momento, em que toda a ansiedade ficou em segundo plano que ela precisava mesmo daquele abraço.. e eu também. Respirei fundo. Engoli as lágrimas, disse lhe baixinho que não ia ao cemitério. Ficamos ali mais uns minutos com ela a chorar agarrada a mim e depois lá me vim embora.
Acho que ainda sinto aquele abraço tão sentido.

Cheguei a casa e em vez de me refugiar como sempre no sofá, fui ao jardim que aqui temos. Encostei-me ao nosso limoeiro, meti os phones, respirei fundo e fiquei ali a acalmar-me. Um pássaro pousou num galho mesmo ali, se esticasse uma mão chegava-lhe. Admirei-o, respirei fundo de novo, sorri e ele voou.

E foi mais um dia de uma luta, claro que amanhã será outro dia, e hei-de vencer isto!

Check do dia:


  • Meditação - feito
  • Yoga - Não
  • Sair de casa - feito
  • Sos - sim



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